quinta-feira, 18 de maio de 2017

A única exceção

Olha, essa vida vai passar rápido. Não brigue com as pessoas, não critique tanto seu corpo, não reclame tanto, não perca o sono pelas contas, não deixe de beijar seus pais, não se preocupe em deixar a casa impecável. Deixe os cachorros mais por perto, não fique guardando as taças, use os talheres novos, não economize seu perfume predileto, use-o para passear com você mesmo. Gaste seu tênis predileto, repita suas roupas prediletas, e daí? Se não é errado, por que não ser agora? Por que não dar uma fugida? Por que não orar agora ao invés de esperar para orar antes de dormir? Por que não ligar agora? Por que não perdoar agora? Espera-se muito o natal, a sexta-feira, o outro ano, quando tiver dinheiro, quando o amor chegar, quando for perfeito... Olha, não vai ser perfeito, o ser humano não consegue atingir isso porque ele simplesmente não foi feito para se completar aqui. Então, aproveite este ensaio de vida e faça o agora, faça tudo que quiser desde que não deixe Deus triste. Sabe a vida abundante que Deus prometeu? Bom, é essa, que você enche todos os dias de pequenas esperanças sem culpar-se por divertir-se, sem julgar-se por ser tão simples e feliz com o pouco. 

Liberdade é leveza, ser livre é ser leve. O mundo vai te encher de rótulos e você vai acabar procurando uma válvula de escape em algo ou alguém. Claro, existem exceções, existem pessoas que para serem felizes necessitam de pouco, nada, ou quase nada. Você precisa, realmente, de um guarda-roupa lotado de coisas? De quantos tênis de marca você precisa pra ser feliz, aliás, quantos pés você tem mesmo? Qual foi a última vez em que você dividiu seu lanche na pracinha com aquele andarilho que te implorava, com o olhar faminto, o farelo que sobrasse? Quanto você gastou na sua última noite na balada ou seu último passeio no shopping? Pare de esperar para viver. Use da simplicidade que a própria vida oferece de graça. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Vai, menina

Vai, menina! Corre pra longe, tira esses sapatos feios e essa roupa encardida, se livra dessa carga. Vai, menina. Chora, grita, joga esse cabelo pro lado. Vai mostrar pro mundo a beleza de se viver. Vai, menina. Veste tua canga mais bonita, chega perto do mar, deita na areia e descansa. Quando a noite chegar, lava esse cabelo, se maquia e sai pra vida.
Vai menina, para de ter medo, para de se iludir. Vai, menina, fala a verdade, conta que não é o que você queria, não tenha medo de sonhar. Se tocar tua música predileta, pede um drink e fica bem. Você é a mais linda, menina. Homem nenhum soube de tua graça. Dança, menina. Aqui nunca se ouviu falar de tão formosa exuberância, jamais se viu algo parecido com o teu encanto. Hoje o dia é seu, menina. O dia e a noite. No outono as folhas caíram vagarosamente, no inverno o frio quase congelou teu coração, na primavera a esperança voltou mais uma vez. Agora é verão, a alma já esteve seca, fria e florida, é hora de renascer.
Quando tudo acabar, você dormir e acordar... põe tua roupa de viver e vive.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Matina

Todas as manhãs ela acorda, deixa os sonhos na cama e põe sua roupa de viver. Todas as manhãs ela caminha vagarosamente pra pegar o ônibus que a levará pra lugar nenhum, pra ver ninguém. Ela imagina como serão as tardes, já sabendo a resposta, finge um sorriso no canto dos lábios e se esforça para ser agradavelmente sã. E todas as manhãs ela espera pela noite, ela espera assim, arduamente, pra voltar para o seu quarto e ser triste. É quando ela sente que está assim, completa. Completamente triste mas, sobretudo, inundada. Nesse momento ela tira a roupa e põe todo o seu corpo embaixo da água morna que sai do chuveiro, ela sorri. Assim, pra ninguém, só pra ela mesma. E percebe que viver vale a pena.